Reportagem sobre o maquiavelismo torto de Lira é um primor de jornalismo

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O texto escrito por Angélica Santa Cruz sobre as peripécias nada republicanas do presidente da Câmara, deputado federal Arthur Lira (PP), é um retrato fiel e acabado de como o Brasil precisa ser passado a limpo. Tá na edição 183 (dezembro) da revista Piauí. É preciso fôlego para ler toda a reportagem (ela tem 52 mil caracteres, algo em torno de 37 laudas), mas compensa. Compensa porquê foi muito bem apurada e escrita. É rica em detalhes e nos leva aos grotões do interior alagoano onde Lira domina politicamente várias dezenas de municípios. Como? Distribuindo verbas públicas e entregando equipamentos. Prática impulsionada com o derrame de dinheiro pelo governo Jair Bolsonaro para as famigeradas emendas secretas. No caso de Lira, a porta para a farra é a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, a Codevasf, comandada por um primo dele em AL. A Codevasf é uma empresa pública ligada ao Ministério do Desenvolvimento Regional. Em tese, tem a missão de financiar projetos de revitalização e irrigação daquela região, mas, nas mãos do presidente da Câmara, se tornou um instrumento político e eleitoreiro para favorecer os aliados. E somente eles. Quem beijar a mão do presidente da Câmara recebe tratores, retroescavadeiras, batedeiras de cereais, máquinas de ordenha, cacimbas ou diferentes tipos de caminhões, de compactadores de lixo a tanques refrigerados para o transporte de leite. Quem não beijar, fica chupando dedo. Tá tudo errado. Como diz um funcionário de carreira da Codevasf, Lira e os apaniguados só entregam a quem vai dar uma resposta eleitoral. “Cadê o projeto de desenvolvimento regional? Cadê a implantação de grandes territórios irrigados, que é a razão de ser da estatal? Não tem”, esclarece o funcionário, que falou, obviamente, na condição de não ser identificado. “Só tem essa gente jogando dinheiro em licitações com valores cada vez mais altos, expandindo a empresa para onde não faz sentido, a fim de ter cabide de emprego e mais cidades onde negociar votos. A Codevasf está virando um prédio torto. Vai cair”, vaticina. A reportagem mostra também como Lira é um homem enrolado em processos judiciais. Ele responde por agressão física à ex-esposa, denúncias de corrupção, apropriação indébita, entre muitos outros crimes, boa parte deles investigados pela Polícia Federal. Enfim, Angélica Santa Cruz nos dá a certeza de que o Brasil não é mesmo para amadores e, em se tratando do modo de fazer política, revela o quanto o jogo é jogado por debaixo da mesa. O título da reportagem é “Arthur, o miúdo – as vaquejadas políticas e as boiadas orçamentárias do presidente da Câmara dos Deputados”. Lira é adversário do senador Renan Calheiros (MDB), outra flor que não se cheira. A certa altura do texto, a jornalista revela a postura de estadista dos dois. Provocado a responder Calheiros por ter chamado Benedito, pai de Arhur, de velhaco, Lira começa por lembrar que velhaco é quem paga amante com dinheiro de empreiteira envolvida na lava jato. E segue disparando a artilharia. O nível é de esgoto.


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