Pastores pressionam Prefeitura de Maringá a barrar oficina sobre “o ser diferente”

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Arte do lançamento do livro (ocorrido) cuja oficina foi baseada

A Ordem dos Pastores Evangélicos de Maringá (OPEM) está pressionando a Prefeitura Municipal para cancelar a oficina de contação de histórias organizada pelo professor João Paulo Baliscei, prevista para o fim deste mês. O professor é autor do livro “A vida de um Chuveirando” e a oficina será baseada nessa obra. Para a OPEM, “trata-se de evento custeado com dinheiro público, no qual o autor do livro “A vida de um Chuveirando” aborda a temática da ideologia de gênero por meio de contação de histórias e atividades presenciais para um público de 09 a 15 anos de idade”. No mesmo comunicado, a Ordem diz que “por meio de sua Secretaria de Assuntos Públicos já está trabalhando para o impedimento desse evento que tem clara intenção de doutrinação ideológica de crianças e adolescentes. Estado laico é aquele que não possui religião oficial e que também não adota nenhuma ideologia como oficial”.

O vereador Rafael Roza (Pros) apoia a atitude da OPEM. Numa rede social, o parlamentar diz que “não aceitaremos nenhuma ideologia como oficial”. Ele se refere ao evento cultural afirmando que a “Prefeitura promove ideologia de gênero com o seu dinheiro”, para em seguida, reproduzir a nota da Ordem dos Pastores Evangélicos.

A reação foi imediata. Também numa rede social, a Secretaria Municipal de Cultura, num texto intitulado “Nota sobre uma mentira” entende que a inverdade criada pela entidade se dá em tom de censura e intimidação à livre expressão de ideias. “O escritor João Paulo Baliscei, autor do livro “A vida de um chuveirando”, utilizará a estrutura do CAC (Centro de Ação Cultural) para realizar oficinas artístico-lúdicas, de caráter pedagógico e de contações de histórias, visando a educação a partir do diferente. A ação faz parte de um projeto contemplado no Prêmio Aniceto Matti, da Prefeitura de Maringá”, descreve a postagem.

“A iniciativa é uma das principais ferramentas de fomento à arte, selecionando, anualmente, em torno de 50 projetos dos mais variados campos, por meio de um longo e rígido processo. De forma distorcida, lembrando a inquisição na Europa no século XII, a nota induz quem lê a pensar que haveria algum tipo de ‘doutrinação’”, prossegue o comunicado.

O secretário de Cultura, Victor Simião, convida a todos os interessados a fazer a leitura da obra e tirar as próprias conclusões. “É um livro que fala sobre se sentir diferente, e cada leitor faz a interpretação que quiser. Vivemos em uma democracia, os livros e as ideias são livres”, desabafa Simião. O texto da Secretaria se encerra afirmando que “à lá Dário (Daniel 6) há quem queira colocar o que considera diferente em uma cova dos leões. Mas, assim como fez Davi na disputa contra o gigante Golias, história registrada em 1 Samuel (capítulo 17), nós resistiremos”.

Para a presidente da Associação Maringaense de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (AMLGBT), Margot Jung, “acontece que a OPEM só tem tempo para fiscalizar dinheiro público quando diz respeito a ações organizadas por pessoas LGBT”. Segundo ela, “essa preocupação com os recursos públicos é muito seletiva e evidencia só a LGBTfobia que a OPEM tenta disfarçar”.


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