Meus avós italianos e a geada de 1975

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Por Tania Tait (*)

 O frio intenso desse ano de 2021 trouxe à memória coletiva dos mais velhos aquele fatídico 18 de julho de 1975, cuja geada foi apelidada de “geada negra” pois queimava todas as plantas. Por sua vez, a imprensa sempre traz notícias referente aquele dia de inverno e a tristeza, que não cobriu apenas os campos de um tom branco frio, mas significou o fim de um ciclo de um produto agrícola na economia brasileira, mudou o futuro de muitas famílias e ocasionou uma nova migração do homem do campo para as cidades. Aqui podem ser lembrados, principalmente os pequenos agricultores e os trabalhadores rurais, numa época em que pouco ou nada se falava em seguro da lavoura ou direitos trabalhistas.

Individualmente, cada um(a) de nós que presenciamos aquele dia, seja como criança, adolescente ou adulto, carrega em si, uma memória.

Eu também tenho a minha memória daquele dia, compartilhada com minhas primas Rose e Regina. Era férias e como sempre, estávamos na casa dos “avós do sítio” como os chamávamos.

O vô Angelo Calvi e a vó Angela Bulla Calvi passaram a vida toda no campo, se conheceram numa colônia italiana no interior de São Paulo, se casaram, tiveram filhos e vieram para Maringá, em 1946, junto com uma leva de italianos. Vieram da Itália bebezinhos, de Trezano Rosa que é o que está no documento deles. Desembarcaram no Brasil, direto de Milão para São Paulo, no colo de seus pais.

Tenho muitas lembranças deles. Sempre com o sotaque italiano forte, a macarronada generosa, o bife na chapa do fogão de lenha, o suco de vinho que a vó Angela fazia pra nós (he he..vinho, água e açúcar e uma meninada toda de bochecha vermelhinha); do pão caseiro, do “qui qui” pra dar milho pras galinhas da vó Angela e seu lenço na cabeça, de nós netos rolarmos na grama dentro dos sacos de café (escondidos, claro), da carroça de passeio e da carroça de trabalho; dos bordados que a vó ensinava, da linguiça calabresa que o vô Angelo fazia, do pomar, do jardim de muitas flores…

Mas, a lembrança mais forte que tenho do vô Angelo é do dia daquela famigerada geada. É como se fosse um quadro, gravado na minha mente desde os meus 14 anos.

Na noite anterior, estávamos no mesmo quarto, as três primas, rindo muito alto. De repente a casa toda começou a rir, meus avós começaram a rir, meus dois tios que moravam com meus avós também. Até que o vô Angelo deu a sua bronca italiana,  mandou todo mundo ficar quieto e dormir que tinham que acordar cedo. A casa era nova, não me lembro quando foi construída. Sei que tinham desmanchado a casa anterior que era maior. Lembro bem da anterior, da disposição dos cômodos, do espaço, da família reunida na mesa da sala de jantar.

De manhazinha eu acordei com um câibra horrível na perna direita. Fazia muito frio. Olhamos pela janela, achando linda a grama toda branca coberta de gelo. Mas, quando vimos meu avô, lá fora, em pé, segurando o chapéu de lado, balançando a cabeça e com seus olhos azuis completamente entristecidos, paramos de rir. Compreendemos que alguma coisa estava errada.

Pouco tempo depois, os Irmãos Calvi venderam o sítio que ficava na Estrada Guaiapó. Meu avô comprou casas em Maringá com a parte dele, mudou para a Vila Morangueira. Em 1978, nos convidou para morar ao lado dele, em uma das casas. Meus pais aceitaram e viemos. Tive dificuldades pois era acostumada com a facilidade de morar no centro da cidade, com tudo à disposição. Naquela época eu descobri que eu era “a neta dos italianos” pra turminha de jovens da igreja.

Sempre encontrava os meus avós indo no mercado ou panificadora bem cedinho quando eu ia para o Colégio Gastão Vidigal. Eles andavam em fila indiana, revezando qual deles ia na frente. Eu brincava com eles: pode andar um do lado do outro na calçada, aqui não é carreador estreito do sítio. Eles riam, davam tchau e Deus te abençoe pra aula.

Meu avô disse uma vez que se sentia preso na cidade. Uma pessoa que nasceu, cresceu, viveu sua vida toda no campo, certamente sente saudades. Mesmo Maringá não tendo todo o trânsito que tem agora, era uma cidade com ruas, carros e movimento no final dos anos 1970.

E num dia no começo de 1979, meu avô fechou seus lindos olhos azuis e descansou. Eu desejava ter sido adulta em 1975, poder ajuda-lo naquela tristeza toda. Guardo aquela imagem dele olhando tristemente a grama branca, sempre com o pensamento de que, certamente, ele teria vivido alguns anos mais se não fosse aquela geada avassaladora.

Até hoje, com meus 60 anos de idade, quando algum estrangeiro ou estrangeira me chama de “Tánia”…sorrio pensando nos meus avós italianos como se ouvisse a voz deles.

(*) Tania Tait, professora, escritora, integrante da ONG “Maria do Ingá Direitos da Mulher”. O texto foi publicado originalmente no blog da professora.


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