Cleuza morou na rua 26 anos, anteontem ela partiu

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A vida de Cleuza Maria Lopes, 58 anos, uma das mais conhecidas moradoras de rua de Maringá, terminou na última segunda-feira. Dependende alcóolica, ela sofreu muitas agressões durante o tempo fora de casa. Era vista em vários lugares da cidade. Por isso mesmo, difícil alguém que não a tivesse visto alguma vez. A trajetória pessoal de dona Cleuza, como costumava ser chamada, esconde muita história de violência nos cerca de 26 anos morando na rua. Certa vez, atearam fogo nela em Iguaraçu. Com o corpo quase todo em chamas, foi socorrida pela família e conseguiu ser tratada pelos médicos. Em outra ocasião, sofreu outros diversos acidentes e incidentes. O último do qual os familiares tem notícia foram golpes de madeira na cabeça. Cleuza esteve novamente internada e contraiu infecção hospitalar enquanto se recuperava da cirurgia. Ela era considerada uma mulher sábia e generosa, a despeito da situação de vulnerabilidade social. A moradora de rua tinha uma ligação próxima com o prefeito Ulisses Maia desde quando ele era secretário municipal de Assistência Social e Cidadania. Na época em que Maia presidia a Câmara de Maringá, Cleuza costumava ir ao gabinete dele para tomar café, acompanhada de seus inseparáveis cães. Na rede social, o prefeito lamentou a partida dela. “Senti muito a morte da Cleusa. Fizemos de tudo para que ela pudesse sair das ruas. Mas, infelizmente ela não conseguiu superar. Quando me via, ela sempre fazia uma festa. Por incrível que pareça não consigo esquecer a gravação do primeiro programa eleitoral no ano passado. Foi na avenida Cerro Azul. Ela estava lá. Acredita que na gravação do ultimo dia, na av. Riachuelo, a Cleusa também apareceu!?  Há mais mistérios entre o céu é a terra do que imaginamos. Descanse em paz, Cleusa!”, relatou Maia.

Cleuza teve a cabeça raspada devido à cirurgia após ser agredida

A postagem gerou muitos comentários e, em um deles, a ex-secretária da Mitra Diocesana, Lucinéia da Rocha, lembrou quando o marido trabalhava na Paróquia São José da Vila Operária e via a moradora de rua sempre por lá. “Ela era mesmo de um coração grandioso… por mais que estivesse em situação de vulnerabilidade, ela acolhia”. O professor de artes e música Elair Clement disse que certa vez Cleusa o presenteou com um tapete para ele dar à mãe, aproveitando para contar a história de mais de 20 anos na rua. “Tempos depois paguei um caldo de cana no Parque do Ingá pra ela…uma pessoa interessante”, relatou o professor. Cleuza tinha quatro filhas e um filho. Uma delas, a costureira Patrícia Pereira, mencionou ter feito o possível pra tirá-la da rua, mas ela nunca quis. Segundo Patrícia, o coração da mãe era “enorme”. Sem condições financeiras, os familares se cotizaram para começar a pagar em parcelas quase R$ 6 mil na compra de um túmulo no Cemitério Municipal onde Cleuza foi sepultada na tarde de ontem, terça-feira. Em casos assim, o enterro deveria ter sido feito numa área de sepultamento provisório, tudo por conta da prefeitura. A família teria até três anos para decidir se iria comprar outro espaço. Não há como desfazer o negócio porque o corpo está sepultado numa área comercializada. De qualquer maneira, um auxiliar próximo do prefeito comunicou que vai conversar sobre o caso com Maia.

Com Ana Lúcia Rodrigues durante pesquisa do Observatório das Metrópoles

A vereadora Professora Ana Lúcia Rodrigues (PDT) também se manifestou pela morte de Cleuza. Por vários anos, na condição de coordenadora do núcleo local do Observatório das Metrópoles, ela acompanhou a coleta de dados para pesquisas sobre a população em situação de rua em Maringá. Com o resultado do levantamento, o Observatório, instalado na UEM, oferece subsídios ao poder público para ações em favor destas pessoas. Ana Lúcia conheceu a moradora nestas incursões de trabalho feito em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania de Maringá e o Centro de Referência Especializado para População de Rua (Centro POP). “Estou muito triste. Hoje se foi a dona Cleusa, uma das pessoas em situação de rua das mais queridas que conheci! Vá em paz, minha amiga, continuarei por aqui levando aos outros tudo que aprendi com você em cada vez que te encontrei!”, descreveu a vereadora nas redes sociais. O que fez o psicólogo, professor e servidor da UEM, Luiz  (Luk) Donadon Leal comentar: “Lembro dela te falando: ‘cuidado professora, tem muita gente ruim por aí, e não estão na rua não!’”. Cleuza estava adoecida desde o ano passado. Ficou acolhida um tempo num abrigo do município, mas há uns 15 dias quis sair e voltou pra rua. Na segunda-feira, na companhia de um colega, se queixou de frio e sono. Ele a cobriu. Cleuza dormiu e pouco depois o amigo observou que ela morrera, dormindo.  A causa da morte não foi esclarecida.


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