A pobreza menstrual, a desigualdade social e o machismo

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Por Tânia Tait (*)

A pobreza menstrual veio à público principalmente durante a pandemia que afetou a renda das famílias que passaram a dispor de poucos recursos financeiros. Ao ter a necessidade básica da alimentação como prioridade, alguns itens foram substituídos e deixados de lado, como, por exemplo o absorvente higiênico. Entretanto, a falta de dinheiro para comprar absorvente não é o único resultado da pobreza menstrual pois ela mostra o problema da falta do acesso a água, falta de saneamento básico e a desigualdade social.

Sendo mundialmente detectado, desde 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) considera o acesso à higiene menstrual um direito que precisa ser tratado como uma questão de saúde pública e de direitos humanos. Especificamente no Brasil, uma pesquisa realizada e publicada recentemente revela que 28% das mulheres de baixa renda são afetadas pela pobreza menstrual, ou seja, mais de 11 milhões de brasileiras.

Tanto problemas físicos como emocionais afetam as mulheres. Físicos pelo uso de produtos como papel jornal, massa de pão ou papel higiênico para substituir o absorvente, o que ocasiona doenças como infecção urinária, candidíase entre outras doenças. No aspecto emocional, muitas faltam ao trabalho ou a escola por se sentirem sujas e constrangidas. Essa situação revelou problemas adicionais como banheiros sujos ou desprovidos de condições para higienização, seja nas escolas ou em locais de trabalho.

Na pandemia, sensibilizados pela situação das mulheres, vários municípios e entidades da sociedade civil realizaram campanhas para arrecadar itens de higiene pessoal femininos como absorventes, shampoos e aparelhos para depilar, destinados às famílias carentes.

Visto como um problema sério, a partir de uma iniciativa popular realizada por mulheres, o Senado brasileiro aprovou uma lei para distribuição de absorventes, coletores e tampões íntimos. Entretanto, a lei foi vetada pelo presidente Bolsonaro, em mais uma demonstração de insensibilidade diante da situação de mulheres e meninas que tem suas vidas impactadas pela pobreza mundial.

Não bastasse o absurdo do veto presidencial ao direito das mulheres pobres de ter acesso aos absorventes para minimizar a pobreza menstrual, alguns homens em todos os cantos do país se sentiram à vontade para atacar o projeto de várias formas: defender o presidente pela justificativa mentirosa de falta de verba orçamentária para o projeto visto que no projeto é detalhado de onde viria o recurso; que a situação dessas mulheres é frescura e que precisa parar de doar coisas pra elas aprenderem a se virar. Esqueceram esses sujeitos, que não menstruam e nem sentem cólicas menstruais nem constrangimentos quando sua roupa é manchada de sangue da menstruação, que durante a pandemia a desigualdade social se tornou gritante, revelando a pobreza em vários aspectos da vida que afetam as pessoas.

Não se pode fechar os olhos para a pobreza menstrual e fazer de conta que ela não existe. Ela está aí gritante e junto com o sangue que se esvai dos corpos femininos, se esvai, também, a possibilidade de uma vida digna.

(*) Tania Tait é professora, escritora, e integrante da ONG Maria do Ingá Direitos da Mulher


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