A história por trás de um nome

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Pedro nasceu Flávia, mas agora pode usar o nome social no trabalho

O Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, com sede em Curitiba, passou a permitir neste ano que funcionário transgênero adote seu nome social no ambiente de trabalho. A medida resolve um descompasso que, segundo a repartição, durava anos. O texto a seguir foi publicado no dia 27 de julho, no site do TRT, um órgão do poder judiciário, com jurisdição em todo o Paraná:

“Garanto para você”, diz Pedro Henrique Ferreira, numa conversa por Zoom, na última quinta-feira (22), “que você não faz ideia do que é ser reconhecido pelo meu nome e pelo meu gênero. É libertador”.

Pedro aceitou dar uma entrevista para a Assessoria de Comunicação do TRT-PR a fim de compartilhar a boa notícia: neste ano, ele ganhou autorização do Tribunal para usar seu nome social.

Pedro tem uma voz tranquila e o bom humor de quem consegue falar sobre coisas difíceis com um sorriso no rosto. Duas características que devem ajudar muito no atendimento da Central de Serviços de Tecnologia da Informação (CSTI), onde resolve todo tipo de problema tecnológico.

A boa notícia pode parecer algo simples, mas trata-se de uma conquista importante, bem importante.

Pedro é um homem trans heterossexual de 31 anos. Para se reconhecer assim, e para que as pessoas o reconheçam assim, ele enfrenta dificuldades quase todos os dias.

Ele explica que ainda está em transição: precisa atualizar seus documentos em um processo burocrático e caro que envolve um número grande de taxas, certidões e atestados; e planeja fazer uma cirurgia para remover os seios, algo que teve de ser adiado por causa da pandemia.

Até o momento, o nome na carteira de identidade e no Cadastro de Pessoa Física é aquele que sua mãe lhe deu: Flávia. Pedro não tem nenhum problema com seu nome de batismo, mas Flávia já não diz respeito à pessoa que ele é hoje. A diferença entre a documentação e o nome social gera confusões, mas Pedro não se incomoda nem um pouco de explicar.

No Tribunal, por exemplo, a pandemia fez com que os funcionários passassem a se comunicar mais por telefone, e-mail, videoconferência e uma ferramenta chamada Conecta – uma espécie de WhatsApp exclusivo do TRT-PR.

Pedro trabalha para uma empresa que presta serviços para o Tribunal, o que faz dele um funcionário terceirizado. O contrato da empresa usa a documentação que existe de fato, e como os documentos do Pedro ainda dizem Flávia, o nome que aparecia associado ao e-mail, ao ramal e ao perfil do Conecta era: Flávia.

Quando alguém era atendido pelo Pedro, muitas vezes começava a conversa usando o nome Flávia, ou mesmo procurando por uma Flávia. Pedro respondia que sim, era ele. “Mas meu nome social é Pedro Henrique”, dizia.

Se for preciso explicar que é um homem trans, ele explica. Exatamente como fez para este texto. “Sei que não é fácil para algumas pessoas entender a mudança, mas é mais difícil para mim, né?”, diz, sorrindo.

Um dia, Pedro foi chamado para resolver um problema de TI no gabinete do presidente Sergio Murilo Rodrigues Lemos. Ao fim do atendimento, depois de falar um pouco sobre sua história, ouviu o presidente perguntar se tinha interesse em resolver essa situação. A situação aqui era o descompasso entre o nome social e aquele que aparecia na comunicação interna do Tribunal.

Pedro disse sim. A partir de agora, embora precise mexer com sua documentação, ele já pode usar o nome social no ambiente de trabalho.


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