Lucimara Torres: A mulher nota 10

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Faltavam nove dias para o baile que iria coroar a formatura dela em Direito e Lucimara Torres retornava de mais uma visita à costureira encarregada de preparar o vestido para a badalada festa. Badalada porque além de reunir os familiares e principais amigos, o evento, dia 9 de março, num dos principais clubes sociais de Maringá, o Country, seria “O Baile”, com B maiúsculo.

O cardápio seria preparado por um dos mais tradicionais buffets da cidade e prometia queijos, defumados, pastas e antipastos, pães, cinco tipos de pratos quentes, além de massa, sobremesa, bebidas (incluindo chopp o tempo todo) e pizzas.

Naquela noite, Lucimara era só alegria estampada no rosto e nas mãos, sempre muito gesticulantes. Afagou e beijou os bichanos Frida e Mingau, este o maior dos cinco gatos da casa, com quase oito quilos, e ainda fez selfies com os donos da residência, os compadres Paulo e Janete Pupim, e com Sofia, uma das filhas do casal, que preparava uma macarronada vegana.

Vestia uma blusa verde e bolas brancas, mangas compridas e gola quase em “V”, além da calça e sapatos pretos, com fivelas e saltos, fazendo a parecer mais alta que 1 metro e 60 centímetros. Os cabelos lisos estavam presos por um laço. O que nada lembrava o penteado de quando era criança.

Na verdade, Lucimara é chamada assim apenas no círculo mais formal. Para os amigos é simplesmente a Lúcia ou Lú. Nasceu em Boa Esperança, um pequeno município na região noroeste paranaense, com pouco mais de 4.500 moradores, perto da cidade de Goioerê, e cujo prato típico é a Vaca Atolada.

Registrada como Maria Lucimara dos Santos Torres, mulata, é filha de uma alagoana descendente de negros e de um homem branco, calvo, originário da mistura entre portugueses e espanhóis.

Vaidosa, seu perfume preferido é o Euphoria, da Calvin Klein. Habitué de salão de beleza, cuida bem da pele, geralmente sob o acompanhamento de dermatologista. Este conjunto de cuidados lhe dá a aparência de uma pessoa mais jovem que os 47 anos de vida. Tem os cabelos pretos e lisos, resultado dos constantes alisamentos. Nem sempre foi assim.

Com o marido Nelson Shinai, e os filhos Arthur e Victor

Uma de suas mais antigas amigas, a dona de casa Janete se recorda de Lucimara ainda criança, com apenas 12 anos, exibindo cabelos encaracolados. “Fiquei encantada com o cabelo dela”, reconhece a amiga, responsável pelo projeto “Dita Vestidos”, uma ONG não formalizada que arrecada tecidos, costura e entrega vestidos para meninas carentes no Brasil e em alguns países da África.

Ambas se parecem no jeito de ser, por sinal. Tanto Lucimara quanto Janete têm personalidades marcantes, especialmente na generosidade, no sorriso aberto e franco, na convicção da fala e na emotividade da circunstância.

Esta emotividade de Lucimara pode ser observada nas noites da Ceia de Natal por exemplo. Junto com o marido Nelson Shinai e os filhos costuma reunir os compadres na casa dela, mais alguns amigos, a mãe e os irmãos Guilherme e Fernanda.

Antes de servir a ceia, Lucimara gosta de fazer um pequeno discurso em forma de agradecimento a Deus pela saúde de todos e pela presença dos convidados. Alguns segundos depois as primeiras lágrimas estão descendo pelo rosto. A oração encerra a rápida cerimônia, com muitos aplausos e palavras de elogios à futura advogada.

A casa é, na verdade, um sobrado de colunas altas reunindo objetos de decoração em alto estilo de tom predominantemente vermelho, uma das cores preferidas da dona da residência. A outra é o amarelo. Ao chegar no sobrado, o visitante costuma ouvir os ruidosos latidos dos três rottweiler alocados num cercado ao lado da cozinha, de frente para a ampla garagem, capaz de abrigar dois veículos de grande porte.

Outros quatro cães completam a matilha, incluindo a Shih-tzu Mel, raça originária do Tibete, na Ásia, hoje ocupado pela China. A dócil e eletrizante cadela é a sombra de Lucimara. O carinho recíproco entre as duas cativa quem esteja perto.

Assim como a filha, a mãe Luziene não é conhecida pelo nome de batismo mas sim por um diminutivo nada ligado a isso. Funcionária pública municipal aposentada, Rose se separou de Manoel quando a menina era criança.

Com a mãe, Luziene (a Rose)

Como foi criada pela mãe, Lucimara tem uma relação distante do pai, tanto física quanto emocional. Isso explica porque Manoel, motorista particular de um famoso empresário do ramo midiático local, nunca está presente na casa da filha.

Falante, Lucimara parece ter escolhido a profissão definitiva, ajustada para o jeito dela. Antes de cursar a faculdade de Direito, fez Pedagogia e especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela Universidade Estadual de Maringá, a UEM.

Embora ainda fará o exame da OAB, a voz eloquente e a citação recorrente de artigos e capítulos das legislações passa ao interlocutor a impressão de ter incorporado o estilo de uma advogada, até porque há muitos anos é ela quem ajuda a resolver as questões jurídicas envolvendo os negócios da família.

Expansiva e contagiante, Lucimara não passa despercebida. Carrega alguns cacoetes, entre eles o “hã?”, geralmente pronunciado em tom de discordância sobre algo, como quem questiona “não é bem isso”. Em tom de brincadeira, também possui o hábito de falar “muléer”, com elevada ênfase na sílaba final, em vez de mulher, como se o “lh” desse lugar a uma única consoante.

Votou em Álvaro Dias (PSDB) para presidente na última eleição, pela afinidade liberal do ponto de vista do pensamento econômico. Crítica ferrenha do PT, sobretudo do ex-presidente Lula, a quem se refere como ladrão sem nenhuma cerimônia, está descontente com o governo de Jair Bolsonaro, a começar pelo visível despreparo.

Para ela, um exemplo disso foi a confessa incapacidade dele de falar o idioma inglês e o pequeno discurso de seis minutos feito no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em janeiro, diante dos principais líderes políticos e empresários do planeta.

Apesar da vida confortável e da posição social privilegiada, está sintonizada com seu tempo e não nega a dura realidade vigente no Brasil, considerado um dos cinco países mais desiguais do mundo e o 9º país mais violento, perdendo apenas para as nações em guerra, como a Síria, Afeganistão e o combalido Iraque.

Se falar no racismo, na homofobia e na misoginia reinantes no Brasil então, Lucimara entende o quanto o quadro é desafiador. Ela não despreza sua negritude, pois em que pese o nariz fino e os cabelos lisos não tipificarem a raça, se reconhece como uma negra inconteste. “Meu bisavô materno era tição, brilhava no escuro”, brinca.

Mas, é na questão do ódio e no preconceito contra as mulheres que Lucimara busca foco para fazer palestras. Há algumas semanas, aceitou o convite para falar a um grupo de jovens e senhoras integrantes de uma organização social não governamental, a ONG “Girassol”, em março. Foi à Secretaria Municipal da Mulher, dias atrás, e voltou carregada de material gráfico institucional sobre as políticas públicas contra a misoginia.  

Esta atitude de correr atrás dos sonhos é uma característica marcante nela. Na infância já dava sinais desta personalidade. “A Lú sempre foi esperta, vaidosa, determinada. Era alegre e inteligente”, diz Janete, que conheceu a amiga na metade da década de 1980 ao morar num pensionato cuja dona era Rose, a mãe de Lucimara.

A diferença de sete anos de idade entre as duas não impedia o bom relacionamento. Janete tinha 19 anos à época. Tanta cumplicidade e convivência de vários anos resultou no convite de Lucimara para que a amiga fosse madrinha de batismo do filho mais novo, Arthur.

Ouvia Lobão, Kid Abelha e Legião Urbana no pensionato. “Ela sempre gostou muito de música. Acho que o Vítor herdou isso da Lú”, afirma Janete, referindo-se ao filho mais velho da amiga, um apaixonado disc jockey ou “dee jay” no jargão do som eletrônico.

Certa vez, Rose recebeu como tarefa de escola a incumbência de interpretar a letra da canção “Faroeste Caboclo”, tocada pela banda de Renato Russo. Lucimara topou a parada e fez o trabalho para a mãe. Cantarolava tanto a música da Legião Urbana que não teve dificuldade na empreitada. Moral da história: o trabalho recebeu a nota máxima 10.

Por falar em desempenho nos estudos e apreço pelo saber, o retorno à escola para concluir a segunda graduação fez de Lucimara uma figura admirada pelos colegas da SMG, a Faculdade Santa Maria da Glória.

“A Lucimara sempre se mostrou uma acadêmica interessada e dedicada com o curso de Direito. Além de aluna, ela é esposa, mãe, empresária, e nem por isso deixou, com sua nítida força feminina, de apresentar-se como uma aluna exemplar”, observa o professor Rodrigo Saldanha, orientador dela no Trabalho de Conclusão de Curso, conhecido como TCC.

Convidado a falar sobre a ex-aluna, respondeu de pronto que faria “com muito prazer”. Segundo ele, ao longo da graduação se percebeu em Lucimara uma aluna que se dedicava a pesquisar sobre os menos favorecidos ou grupos de pessoas consideradas vulneráveis. “Ela sempre teve um olhar atendo às principais urgências da contemporaneidade, uma pesquisadora nata”, declara Rodrigo, advogado, especialista em Educação Ambiental e mestre em Ciências Jurídicas.

O professor se recorda de ela ter aceito, em 2014, o desafio de apresentar um trabalho num simpósio internacional na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina. Conforme Rodrigo, Lucimara foi uma das acadêmicas responsáveis pela viabilidade do evento. Esta participação demonstra, na avaliação do professor, que a ex-aluna se fez presente não somente em Maringá mas levou seu conhecimento para a América Latina ao apresentar uma pesquisa para professores do Chile, Colômbia, Venezuela e Argentina.

“Maria Lucimara dos Santos Torres é uma aluna que deixou sua marca na Faculdade SMG e irá brilhar na docência e pesquisa científica, sendo uma das acadêmicas dos quais nos orgulhamos!”, atesta Rodrigo.

Ela teve vários empregos na adolescência e no início da idade adulta. Foi auxiliar de dentista, trabalhou em relojoaria, atuou na área de vendas, e, além de outras várias ocupações, passou pela Central de Abastecimentos de Maringá, a Ceasa.

Neste particular traçou uma trajetória de esforço sem tréguas comparada à da mãe. Rose chegou em Maringá sem estudos, totalmente analfabeta, sem trabalho e, aos poucos, com muito empenho, conseguiu o suficiente para ter hoje a casa e o carro próprios num bairro de classe média situado na área quase central da cidade.

Sobre um dos fatos que mais a marcou na infância de Lucimara, a mãe tem a lembrança da filha pulando o muro da escola para brincar na rua.

Com a fala novamente Janete: “vejo ela como uma pessoa muito justa, sincera e honesta. A Lú é bem companheira”, exaltando ainda outro atributo da amiga: a organização, seja na vida pessoal ou profissional. Atributo fácil de ser percebido mediante a forma metódica como ela separa as roupas passadas a ferro e guarda os documentos da empresa por exemplo. Com o diploma de bacharel em Direito e da licenciatura em Pedagogia, Lucimara passou a ocupar o seleto grupo dos 12,5% de mulheres que, no último censo, em 2010, tinham curso superior no Brasil. Estava entre as 29.314 pessoas detentoras deste privilégio em Maringá, também de acordo com o mesmo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.


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